
Quanto tempo o tempo tem
Invisível, relativo e incontornável.
É tudo o que temos, é o que nos forma, mas também, o que nos falta sempre.
Tentamos medi-lo, contê-lo e nomeá-lo em horas, calendários e estações, traduzindo o enigma ancestral de fixar, ou, mais precisamente, tornar presença o que é passagem.
Quanto tempo o tempo tem invoca, condensa, suspende e, paradoxalmente, transforma numa pulsação visual um vestígio de um instante que não se repete.
É um exercício de profundidade no efémero, sem pressa nas formas, nem promessa de permanência, com uma temporalidade própria, que suspende a narrativa.
Não se trata de dar respostas, nem de capturar o tempo cronológico, linear, mensurável, aquele que escorre como areia entre os dedos, mas transformar em experiências o tempo vivido, da memória e do gesto. É uma meditação visual sobre o presente, pois é agora que tudo acontece.
Quanto tempo o tempo tem desdobra-se em múltiplas camadas, tendo exatamente a grandeza do instante em que somos capazes de contemplar com um olhar silencioso a intensidade do momento que passa e nos transforma.
É um convite a desacelerar, a deixar-se afetar pela presença da forma que nos devolve ao tempo real, não o da produtividade, mas da contemplação.
Mas afinal, quanto tempo o tempo tem?
Tem o tempo que lhe damos, para sem pressa e sem tentar explicar, olhar, sentir e viver, mesmo sabendo que tudo passa.
Como o gesto que sabe que cada traço é irrepetível e, por isso mesmo, eterno no instante em que acontece.



